domingo, 31 de janeiro de 2010

ESSE AMOR QUE MORRE















Como a me dizer uma voz pausadamente
Enxuga esse teu pranto, não chore mais,
Esse amor já se foi, o teu sonho jaz...
Dentro doutros sonhos naturalmente!

Tu hás de encontrar em outra boca
Os beijos que de negar não viste
Os abraços quando tu partiste
Na desventura dessa fuga louca!

Há de nascer outra semente: A flor!
Botão de rosa a pincelar de cor,
A cobrir-te com pétalas nas manhãs;

Meu amor, tu haverás de compreender,
Que são precisos amores pra morrer,
Para que renasçam outras dores vãs!

domingo, 24 de janeiro de 2010

FIM DE TARDE




















Nesse fim de tarde vejo-me despojada de um
velho segredo de melancolia. Igual as cismas
de um louco – tão-somente sentimentos
românticos desmistificados e desmemoriados
nesse fim de tarde...

Surpreendeu-me esse teu regresso inesperado
– sutileza das sensações inúteis...
Compreendi enfim, teu silencioso afago
num olhar inquieto e sobretudo cúmplice.

Mal rompe a manhã, encanto-me por
tudo que vejo. Alcanço uma flor e a deixo
“num dia de vida” enlaçar-me de carícia
com esse perfume que exala de ti...

E, de súbito fogem de mim (sem ameaça)
– tu e o perfume dessa flor de rara humildade.
Guardarei sigilo desse nosso encontro.
Na voz, nenhum travo de desgosto.
Irei lutar com palavras – aceito o combate.

Iludo-me às vezes, pressinto que a entrega
se consumirá – feita de mistério...
Um sapiente amor me ensina a fruir
esse sutil queixume. É o instante de entreabrir
os olhos: entre beijo e boca tudo se evapora!

Na curva da noite se conclui esse inútil
duelo que jamais se resolve. E a luta
prossegue com as portas cerradas. Nas
ruas do sol esplende o ciclo do dia...

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

EU NÃO ERA ASSIM...




















Hoje, já não me reconheço no espelho
de agora, não imaginei que seria assim
tão diferente (corpo e alma)
Seria a idade dos meus cabelos brancos
que aos poucos me ignora?
Eu não era assim tão triste!

Hoje, já não me reconheço no olhar
longínquo, quase sem intenção...
Apagou-se aquele lampejo que
ofuscava o brilho das estrelas
quando era lua cheia de ilusão.
Eu não era assim tão infeliz!

Hoje, já não me reconheço no sorriso
programado, pousando para uma foto
(quase naturalmente) esboçando
um riso falso apenas para deixar
uma boa impressão para quem vê...
Eu não era assim tão boa atriz!

Hoje, já não me reconheço no andar
lento, quase sem direção...
Vago numa rua qualquer sem me
preocupar com um rumo certo,
com as horas paradas do meu relógio.
Eu não era assim tão sem destino!

Hoje, já não me reconheço no amor
(palco vazio dos meus sentimentos
mais raros) onde recolho minhas
penas não apenas para revoar
sobre as míseras migalhas que caem
aos meus pés de vez em quando...
Eu não era assim tão sozinha!

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

AVESSO DAS COISAS MÍSTICAS


















Hoje, olhei-me num espelho imaginário
– um leve susto preso à corrente de um
novo cintilar (cuja pétala bordada pelo avesso)
levou-me ao escuro parecer – onde o mal
torna-se bem e a terra de repente em florescer.

Meu olhar vê apenas o presente em fantasia
embora, persista o desamor – não fosse
essa mágoa o amor renasceria com uma
bela face menos triste – sem tecer o adivinhar.
Procuro recriar o avesso do pranto e esperar...

Parto, como o cavaleiro na guerra – a guerrear
na mão direita, traçando meu destino de volta...
Sinto-me sufocada. Preciso defender-me e respirar
de olhos fechados o ar das florestas – esse frescor
intacto de gosto inalterado da natureza que existe.

Temo que chegue o dia em que eu não tenha
mais do que me lamentar nesse mundo.
Se eu não tenho mais o canto do rouxinol
mas, o bem-te-vi continua me acordando
todas as manhãs embaixo da minha janela.

E, esse avesso das coisas, leva-me às vezes,
ao inferno ou ao paraíso – alternadamente.
Tento conciliar os dois lados (nenhum é perfeito
ou infinito... ) todas as sensações são bem
passageiras – portanto, sobrevivemos
“ao bem ou ao mal” sem contaminar a alma.

Temo desgovernar meu interior universal
contradizendo minhas idéias soltas,
desorganizando a direção dos meus ideais
que permanecem intocáveis e puros
como uma lâmpada guardada há séculos.
Embora, esse sol artificial resplandeça em mim.

sábado, 2 de janeiro de 2010

EU VOU E VOLTO...













Quando fecho meus olhos, vejo os teus
olhos, olhando-me como dois faróis
iluminados na escuridão da noite fria
querendo adivinhar os meus desejos:
por onde vou, qual o meu nome, em
qual esquina irei passar...

Em silêncio, quase em segredo, ficas
a seguir-me com o olhar a se perder
na distância que nos separa por algumas
horas, dias talvez... Nós não sabemos onde
irão se estender os nossos passos, nossas
palavras sem expressão...

Todos os dias, todas as tardes ensolaradas
a nos queimar, passo ao teu lado feito promessa
que não se cumpre, que se desata todos os nós
da nossa alma, quando te vejo...

Às vezes, finges não ver-me aproximando,
e, recostando-se na sombra de uma árvore
simulas ler um livro (como de costume)
Serão poemas? Talvez um romance.
Um conto de amor? Ou o que será?

Eu sigo na incerteza do próximo encontro
Levo comigo a curiosidade da intenção
que nos sufoca, que nos oprime e que
devasta toda a censura do pensamento.

Quando me afasto – ficas comigo
Quando eu volto – fico contigo
Feito um poema que lês eu te escrevo
para recompensar-te pela espera
angustiante, de vez em quando...
Eu vou e volto. Tu ficas e vais.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

MINHA PARTIDA


















Quando, eu partir pra bem distante daqui...
longe, mais além daquilo que fui, do que escrevi.
Hei de verter lágrimas no solo ardente
Hei de ver o sol no horizonte abrir-se radiante
perante os versos alegres que eu não fiz.

Quando, evaporar-se toda essa minha tristeza,
e, sem mais amarguras minha alma estiver.
Hei de correr na vastidão das verdes matas
Hei de colher botões de rosas nos caminhos
Deixarei de ser assim tão infeliz.

Quando, este mundo for completamente meu,
e, na palma da mão eu puder escondê-lo
de todos: os meus segredos e pensamentos.
Serei a peregrina estrela que se perdeu
no espaço, procurando por algo a mais
que nunca encontrarei aqui na terra.

Quando, tudo for relativo e sem mistérios
Hei de ignorar a fonte do meu viver.
De onde vim? Para onde irei? O que importa?
Se na volta ninguém se perde, nada se desfaz.
Nem mesmo a morte fica esquecida com o tempo...

Quando, todos os meus conflitos se dissiparem,
voarei tão alto e com tanta harmonia e paz.
Subirei aos céus e nas nuvens repousarei
o meu cansaço durante séculos de espera
nesse conforto que só a morte enfim nos traz...

sábado, 19 de dezembro de 2009

AOS SOLITÁRIOS POETAS PAGÃOS



















Li e reli um antigo poema que fiz à luz
de uma vela, e um grande mar de emoção
ouvia-se dentro de mim. Entendo que nada
sou (talvez, eu seja uma ficção).
Já não sei o que quero de mim ou o que espero
ainda desse mundo. Diante da caridade vejo
a luz soberana brilhar no alto dos séculos.

Minh’alma necessita de liberdade – em torno
de mim escuto o silêncio excessivo da noite
que se confunde com um grande barulho
(ao contrário). Sinto uma tendência ao choro
e a desolação. Todos nós estamos cheios de
vozes que, às vezes, mal cabe dentro de nossa voz.

Depois de um dia inteiro de trabalho, sinto-me
cansada e fecho-me numa sala, onde as horas
estão paradas... Ouço uma voz na escuridão
tranqüila – um som de flauta chora incessante.
Num lugar ao longe cintila clarões da noite fria.

E a orquestra? E os beijos que foram teus?
Vejo-os agora numa moldura resgatada
que desperta-me um desejo absurdo
de sofrer – enjoa-me e perturba-me,
qual uma cor monótona de melancolia.

A neblina do céu assemelha-se a gaiolas
com grandes viveiros – ocorre-me intensa
soturnidade e eu volto a sonhar à borda dos
abismos silenciosos. Vejo a lua com seus
raios vaporosos e insensíveis, igual aos vícios
cruéis, como os longos cuidados dolorosos.

Amo a madrugada – santa e misteriosa.
Ao meio-dia sinto em mim uma vida
refervendo, e a tarde repouso em plena
luz. Depois, vejo morrendo o claro sol
– Amigo dos solitários poetas pagãos.