domingo, 8 de novembro de 2009

INTERROGAÇÃO



Não posso deixar de pensar com ironia
e tristeza, como são longos, às vezes,
os caminhos da vida. E, quanto
tempo se pode levar para se chegar
a um poeta. Era o amor? Era a morte?
Uma coisa só respondi num verso.

Procuro o teu olhar. Não sei se isto é amor.
Busco-te como abrigo, se alguma dor me fere.
E, apesar disso, crê! Nunca pensei me afastar.
Eu seria feliz contigo onde estivéssemos
e adoeceria talvez de te saber doente.
Amor não sei se o é, mas sei que não te esqueci.

Infinitamente, é uma palavra que se estende
por rios, montes, vales, infinitamente
como os braços de Deus. Teu sorriso modesto
posto no chão, mas empolgou-se ao colher
uma flor no chão. Senti-me luminosa
como uma estrela, poderia ter permanecido
mais de dois minutos em levitação...

Nunca chorei por ti nenhum sonho desfeito.
A ti escrevi versos românticos e depois
de acordar te procurei no leito como um
esposo ideal. Se isto é amar-te, não sei.
Não sei se te idealizo, o teu sorriso terno.
Sinto-me sorrir de ver esse teu sorriso
que penetra em mim como este sol de inverno.

Tantas coisas que me aconteceram tão piores
que esta, eu já perdoei. O jogo de dados de um
destino irracional? É impiedoso.
Prossigo a me imaginar, sondando o que poderia
ter vivido ao teu lado. Vivo dispersa, anônima no mar
e na imensidão do infinito das cores...

Às tardes, passo sempre contigo, sem receio,
nessa luz crepuscular, que me provoca e enerva
lembro-me de beijar-te a boca.
Não sei que mudança minha alma pressente.
Eu não sei se é amor. Será talvez o começo...


Vilma Oliveira

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

APRENDIZAGEM



De repente, o aeroporto ficou vazio.
Viajou meu amigo. Fico refletindo
na falta que ele me fará...
tivesse eu um impulso de irritação,
e me sentiria desarmada com a sua
azul maneira de olhar-me...

Eu sabia que essas coisas eram
indiferentes à nossa amizade como
prova de poesia e jogo. No seu sorriso
sem malícia e de negras pupilas – que
afasta qualquer suspeita ou acusação
apressada sobre a razão íntima dos seus atos...

Sua simples presença e seu sorriso
compensariam providências e privilégios
maiores. Recebia tudo com naturalidade,
sabendo-se merecedor das distinções, e ninguém
se lembraria de achá-lo egoísta ou inoportuno...

Acordaria sorrindo (como de costume)
mas, não me perdoaria ser a responsável
pelo corte do seu sonho. Juntos, ouvimos
a orquestra de Bach. Sempre tivemos muito
assunto, e não deixamos de explorá-lo a fundo...

Procuro decodificar as mensagens que ele
me envia, sempre tomando todo o cuidado de
interpretar o conteúdo delas. Nesses poucos
dias aprendi mais coisas sobre mim do que
em muitos anos saudáveis pelas rotinas da vida.

Descobri afetos insuspeitados, docilidades,
relevâncias onde antes nada havia.
A absoluta irrelevância de certas coisas
que eu julgava muito importante.
Os males imaginários – a morte singular
e vulgar, nos arrebatará deste mundo.


Vilma Oliveira

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

MINHAS ÚLTIMAS LEMBRANÇAS



Dessas últimas lembranças que me restam
do tempo em que eu me sentia feliz (e não
sabia) – era a abundância do céu.
Algumas vezes, eu me achava diminuída
sob esse azul dilatado na areia branca da praia.
Sentia-me quase como uma minúscula formiga
no centro de um imenso deserto...

Agora, tudo se modificou – não mais existe
paisagem lá fora. Esse vento já não me fareja
a face como antes... Mas, esse azul irresistível
e irreversível persiste em meus olhos. Bebo esse
vento azul sem pedir licença a ninguém...

O que fazer com esses pensamentos que nos
chegam de súbito nas ocasiões mais impróprias?
Há ruídos anônimos que nos persegue pela
madrugada nesta cidade deserta – como um
grito desgarrado de uma locomotiva que
apenas rompe o silêncio ameaçador.

Existe o silêncio de um primeiro olhar de desejo
que ninguém vê – trêmulo ao ser descoberto
num perfeito entardecer nas montanhas.
Ah! Se eu pudesse viver novamente minha vida
– teria uma alma secreta palpitando em mim.

Transformo as mínimas sensações em grandes
vivências – com os olhos e os ouvidos bem atentos.
Fluem vozes e o mundo inteiro ressoa...
Como um explorador, vou me aventurando por territórios desconhecidos, fazendo minhas descobertas no cotidiano.


Vilma Oliveira

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

MINHAS TRÊS PAIXÕES



Escrevendo, descubro sempre um novo
pedaço do infinito na profundeza do mar
onde vivem as almas dos poetas...
Na minha vida descobri três paixões:
O anseio do amor, a busca pelo conhecimento
e a dolorosa piedade pelo sofrimento alheio.

As paixões são como os grandes vendavais
que nos impele para as raias do desespero.
O amor nos produz êxtase de rara alegria
e nos liberta da solidão terrível – esse abismo
frio e exânime além dos limites do mundo.

Busquei no amor uma miniatura mística
(na visão dos santos e dos poetas).
Busquei o conhecimento através do coração
dos homens. Quisera saber porque cintilam
as estrelas – tudo nos conduz para o alto.

A piedade me traz de volta à terra – ecos de
gritos de dor ecoaram em meu coração ao
constatar tanta desigualdade social.
É impossível aliviar esse mal – anseio,
mas nada posso fazer e também sofro.

Minha vida tem sido governada por essas
sensações irresistivelmente fortes que tenho
considerado digna de ser vivida e, se me fosse
dada a oportunidade de torná-la realidade
estaria eu – atenta a esse olhar de misericórdia.

domingo, 31 de maio de 2009

MEDITAÇÂO



Da mesma nascente de onde me chegava
o consolo, avolumava-se o desconsolo.
Viajo a uma enorme velocidade por terras
e mares – rodeando e volteando...
Paz, enfim: o encanto se conclui assim.

A terra tem bolhas de ar, assim como a água,
e essas figuras-bolhas são da terra e da água.
Para onde sumiram elas? Derreteu-se como
a respiração no vento, bem queria que elas
tivessem ficado em pleno ar...

Os temores do presente são menores do que
as horríveis figuras da imaginação. Esse meu
pensamento fantasioso sacode de tal maneira
“o reino da minha condição humana e única”
que toda ação fica asfixiada em conjecturas,
e nada mais existe em torno de mim, apenas eu!

Aconteça o que acontecer, o tempo e as horas
sempre chegam ao fim – mesmo o dia mais
duro dentre todos os dias. Minhas alegrias
frutíferas, em sua plenitude, buscam esconder-se
em gotas de contrição – é um degrau que devo galgar!

Que o olho se feche ao movimento da mão,
e, no entanto, que aconteça aquilo que o
olhar teme. Que as estrelas escondam
o seu brilho e não permita que a luz
veja meus profundos e escuros desejos.

domingo, 10 de maio de 2009

MEU VERSO DE CADA DIA...



Às vezes, penso que a loucura é um estado
natural de se enxergar o mundo e as pessoas
com transparência, “Sem no entanto, se sentir
uma invasora ou uma intrusa”, capaz de penetrar
no infinito de todas as coisas impenetráveis...

Quando estou sozinha comigo mesma,
sinto necessidade de me isolar e, por um
momento, ignorar esse mundo lá fora...
com suas turbulências e equívocos.

Deixo-me levar por pensamentos inefáveis,
onde sou eu a única passageira de um trem
que me levará ao “paraíso celestial ou ao
inferno dos homens”. Céu apaziguado das
minhas limitações confusamente vagas...

Abro as cortinas da janela do meu quarto
e debruço-me nas mais remotas lembranças
onde estão congeladas imagens de um
tempo bom que passou e não mais voltará...

Fecho meus olhos e imagino-te aqui ao meu
lado ouvindo nossa música preferida.
Recitando versos de um poeta morto. Pondo
palavras doces na minha boca e revelando
segredos de “uma aventura quase inocente.”

Tudo isso, me transporta a minha plenitude
onde conservo invioláveis fantasias de um
amor “quase platônico e quase perfeito.”
Lacônico e pleno – antegozando acontecimentos
mais inesperados do “meu verso de cada dia.”

sábado, 2 de maio de 2009

VÔOS DA ALMA



Peço-te perdão por te amar tanto!
Mesmo que para os teus ouvidos o meu amor
seja uma canção antiga. Bebi na tua boca
o perfume dos sorrisos. Esse grande afeto
que a ti dedico melancolicamente
em gestos e lamentos – são vôos da alma.

Posso falar-te das lágrimas de promessas,
misteriosas palavras em transbordamento.
Peço-te que fiques quieto e mudo de apelo
Deixes que nossas mãos se encontrem em
carícias e repouse no olhar estático da aurora.

Traz-me a doçura dos teus beijos e a terna
fascinação das noites cálidas falando-me
do teu amor, eterno amor! Mentiste quando
me revelaste teu nome? Viveste na sombra
por todo esse tempo? Mataste os rios e as
aves do céu e rompeu-se o meu sonho...

Vieste das torres mais altas que a lua,
onde dormem os anjos e a maldição...
Revesti-me de paz para que tu me encontrasse
perfeita – sou árvore – outono dos ideais
Perdi-me na ilha longínqua das estações...

Se eu tivesse escutado meu silêncio – essa
voz de dor apaziguada. Fechou-se a porta
– bebi o vinho da tristeza e supliquei
a Deus piedade – a mim e aos homens.
Cantarei hinos de redenção a humanidade.
A ti... ofereço-te a montanha mais alta
E os rastros que ficaram do poeta...